segunda-feira, 3 de março de 2025

Columbia e Rapture: o fracasso utópico

Columbia, uma cidade flutuante, deslumbrante, e organizada, um paraíso visual com arquitetura impressionante e, à primeira vista, uma aparente harmonia social. Uma cidade para os "escolhidos", criada para ser o mais próximo possível de um "paraíso", mistura fé, religiosidade e política, tendo como líder Comstock, um homem que se autoproclamou profeta e cuja autoridade não pode ser questionada. A cidade exibe tecnologias incríveis, mas logo percebemos o "preço" dessa grandiosidade. O fanatismo religioso e nacionalista alimenta uma segregação opressiva contra minorias e dissidentes, algo inicialmente sutil, mas que logo se torna revoltante, como quando percebemos a existência de banheiros exclusivos para aqueles considerados "puros" e "não puros".



Rapture, por sua vez, foi construída por Andrew Ryan sob a premissa de liberdade absoluta, onde o mérito individual e a ambição definiriam o sucesso. Sem interferência governamental ou restrições morais, essa cidade submersa atingiu avanços científicos extraordinários, da autossuficiência no fundo do mar à modificação genética.Uma cidade feita para aqueles que buscavam um lugar sem limitações, onde o status social era supostamente conquistado por talento e ambição, mas, na prática, a ambição e a ganância determinavam quanto do status poderia ser comprado.


Ambas as cidades fracassaram, e a desigualdade social é um fator comum que levou ambas à ruína. Em uma delas, a desigualdade foi promovida pela segregação racial e social, enquanto na outra, pela falta de "mérito", pela falta de capacidade (financeira). A opressão do profeta, que alimentava seus apoiadores com discursos nacionalistas e excludentes, chegando a controlar até os relacionamentos entre as pessoas, contrasta com o capitalismo desenfreado de Rapture, onde a ganância e o egoísmo facilmente resultavam em uma disputa por poder. Uma cidade é clara, lindamente iluminada, um conto de fadas totalmente idealizado pelo seu profeta, cheio de manipulações da "verdade" e distorções da realidade que, mesmo evidentes, as pessoas se mostravam incapazes de enxergar. A outra é escura, despertando um sentimento misto entre mistério e deslumbre, onde uma triste realidade é estampada a cada novo ambiente explorado.

Columbia e Rapture, embora fundadas em ideologias opostas, seguiram o mesmo caminho em direção à ruína. O excepcionalismo religioso e nacionalista de Columbia, assim como o objetivismo e a liberdade irrestrita de Rapture escancaram os vícios humanos: extremismo, corrupção do poder e desigualdade social. Enquanto Columbia é destruída por seu fanatismo ideológico e opressor, Rapture colapsa devido à ganância e ausência de limites morais. São belas teorias fadadas ao fracasso que ignoram todas as complexidades humanas, desafiando temas ainda atuais que mesclam polarização, desigualdade e dilemas éticos.


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

DeepSeek e a disrupção da recém nascida IA

Vamos lá! Vou tentar contar uma historinha de uma forma que fique fácil de entender.

Os Estados Unidos acreditam que ter um bom domínio sobre a Inteligência Artificial garantirá que eles estejam à frente na nova revolução industrial que está por vir — uma revolução digital. Por isso, investiram bilhões em tecnologias para que suas Big Techs, as grandes empresas de tecnologia, pudessem desenvolver inteligências artificiais generativas. Essas IAs têm o objetivo de auxiliar as empresas e transformar o mercado.

Eles sempre souberam que existe outro lugar no mundo com um poder tecnológico gigantesco. Lembra da crise de chips durante a pandemia? Conhece a TSMC? Ela é a maior fabricante de chips do mundo. Quando falo em chips, estou me referindo a processadores, placas de vídeo e outros componentes essenciais. Do outro lado do mundo, a Ásia domina a produção desses componentes com o melhor padrão de qualidade: memórias, SSDs, telas para celulares e muitos outros. No entanto, os EUA, especialmente o pessoal do Vale do Silício, nunca consideraram os asiáticos uma “ameaça” em termos de competitividade. Para eles, os asiáticos só faziam “peças”, e o desenvolvimento tecnológico oriental era visto como ultrapassado e pouco inovador.

Apesar disso, durante o primeiro governo de Trump, os EUA decidiram implementar algumas medidas para restringir parcialmente a influência chinesa. O caso mais notável foi o conflito com a Huawei, que começou com as antenas 5G e se estendeu à comercialização de seus aparelhos com Android. Claro, isso também afetou outras áreas, como a venda de chips da Nvidia, que se tornou uma das maiores empresas do mundo nos últimos anos, principalmente devido ao boom da Inteligência Artificial.

E os chineses seguiram suas vidas. Bem, então surgiu o famoso ChatGPT, um produto com investimentos gigantescos, inclusive da Microsoft, além de outras IAs de várias Big Techs estadunidenses, como o Gemini, o Copilot, a Meta IA e várias outras. Essas empresas conseguiram recursos praticamente infinitos para financiar a energia gasta e as inúmeras unidades de processamento necessárias para treinar e desenvolver essas inteligências artificiais.

Mas você se lembra do TikTok? Pois é, ele surgiu do outro lado do mundo, com uma interface que cativou o mundo todo. Certo? E eu diria que o aspecto mais disruptivo do TikTok não está na sua interface, mas na maneira como a plataforma entrega o conteúdo produzido. Enquanto Twitter, Instagram, Facebook e outras redes sociais estadunidenses geralmente entregam o que elas querem (já ouviu falar em interferência em eleições por meio dessas plataformas?), o TikTok é claro que está visando seu lucro, mas ele se esforça mais em entregar o que o usuário quer, o que ele procura. Já deve ter ouvido falar que o TikTok está “substituindo” o Google entre os mais jovens. Entendeu agora por que isso faz sentido? Percebe por que os estadunidenses estão tão preocupados e, recentemente, tentaram impedir o TikTok no país? Uma das condições para que a rede social continuasse acessível era que ela fosse vendida para algum grupo estadunidense.

Bem, continuemos. Antes mesmo do bloqueio do TikTok nos Estados Unidos, jovens e Tiktokers estadunidenses entraram em um acordo entre si para baixar outro aplicativo chinês: uma rede social usada por chineses para chineses, que funcionava basicamente como um “review” de lugares. Era um espaço para fazer check-in, avaliar estabelecimentos, postar fotos e compartilhar experiências. Nessa troca de informações culturais, os jovens estadunidenses perceberam que a China era um lugar completamente diferente do que imaginavam, com certas liberdades que existiam de um lado e não do outro, e vice-versa.

Dada toda essa contextualização, chegamos a alguns dias atrás, quando uma startup chinesa lançou um produto para competir com a Inteligência Artificial mais conhecida e utilizada no mundo. Esse novo produto chinês demonstrou características tão aprimoradas que rapidamente se tornou o aplicativo número 1 na Apple Store e também o mais bem avaliado por lá.

E, claro, isso chamou a atenção do mundo. Espantou todo o cenário das Big Techs estadunidenses, mostrando o tamanho da ineficiência delas.

Os chineses dessa startup trabalhavam com unidades de processamento limitadas e tecnologicamente defasadas em comparação com o que é utilizado pelas empresas estadunidenses, graças às medidas restritivas do primeiro governo Trump. Eles tiveram que trabalhar com o que tinham, aperfeiçoando os códigos de software para realizar todo o trabalho mesmo assim.

Com aproximadamente 6% do último investimento que foi captado pela Open IA, dona do ChatGPT, criaram o que já num primeiro momento é um produto muito equivalente aos usuários mais comuns e, em alguns aspectos, até melhor, conseguindo manter diálogos mais fluidos e contextualizados com uma linguagem mais cotidiana. Além disso, para provar sua eficiência abriram o código para que qualquer pessoa com conhecimento técnico suficiente pudesse utilizá-lo e adaptá-lo para suas necessidades. Algo como o Android, que pode ser usado em celulares, tablets, computadores, geladeiras, TVs e qualquer outro dispositivo, o DeepSeek também poderá ser “baixado” e adaptado.

O que acaba sendo curioso também é que, ultimamente, temos visto uma enxurrada de produtos lançados especificamente para trabalhar com Inteligência Artificial. Novos processadores com componentes dedicados à IA, notebooks de última geração e uma série de dispositivos que chegam ao mercado com a promessa de serem os únicos capazes de lidar com essa nova tecnologia. No entanto, com o código do DeepSeek aberto e pessoas testando-o em suas próprias máquinas, percebeu-se que não é necessária toda essa nova “safra” de produtos especializados em IA. O hardware antigo já é capaz de realizar as tarefas do modelo de IA pronto. Talvez não com a mesma eficiência, mas, de forma alguma, de maneira inviável ou por enquanto, ineficiente.

Apesar do marketing agressivo das big techs, a otimização do DeepSeek revela que para o usuário comum, a “era da IA” ainda não exige hardware novo, apenas que os softwares sejam mais eficientes. Claro que modelos futuros certamente deverão demandar chips mais avançados mas o marketing por upgrades imediatos ainda não parece justificável. Um exemplo claro são os celulares: a Samsung está anos à frente da Apple em IA, com a Galaxy AI chegando para as novas safras de celulares da marca, mas também integrada a aparelhos mais antigos por meio de atualizações de software.

Enquanto as empresas estadunidenses investem pesado em novas tecnologias de hardware, os chineses, com o DeepSeek, mostraram que, com software bem otimizado, é possível alcançar resultados impressionantes mesmo com equipamentos mais antigos. Essa descoberta não só desafia a narrativa das Big Techs, mas também coloca em xeque a necessidade de data centers cada vez maiores, assim como as atualizações constantes de hardware para que o usuário comum acompanhe as inovações em IA.

Aqui cabe uma distinção entre o usuário comum, que se vê incentivado a comprar um novo hardware que apenas ele seria capaz de utilizar a “inteligência artificial”, da necessidade das big techs desenvolvedoras de modelos de inteligência artificial generativa em ter acesso a grandes data centers capazes de cumprir tarefas pesadas como simulações científicas ou treinamento multimodal.

E então veio o crash: a falta de confiança dos investidores nos resultados que as empresas estadunidenses estão apresentando, em comparação com o investimento e o produto que a startup chinesa lançou.

Não importa o quanto os Estados Unidos tentem reprimir o que acontece do outro lado do mundo, estamos chegando a um momento em que eles terão grandes desafios para continuar liderando o mercado de tecnologia. A China tem se tornado um grande polo tecnológico, e isso inclui a inovação em IA, e podemos deduzir que continuará assim ao observarmos que os EUA tem cortado investimentos em universidades e pesquisas enquanto a China aumenta estes mesmos “gastos”.

Apesar disso, vale lembrar: a indústria chinesa de IA AINDA depende dos semicondutores ocidentais para treinar seus modelos mais complexos, uma vulnerabilidade que os EUA exploram com restrições à exportação de chips mas que aparentemente não é capaz de frear o processo. A China já possui investimentos gigantes para fábricas de chips para reduzir este gargalo, mostrando que a disputa pela eficiencia em IA está apenas começando.

Já sabemos o espetáculo que são as tecnologias japonesas e coreanas, embora em menor escala de investimento. E logo teremos mais um participante nessa brincadeira: a Índia já está chegando. Os Estados Unidos podem até considerá-los um grande rival e tentar impor uma “bipolaridade” ao mundo, mas os chineses não estão nem aí. Eles estão atrás de dinheiro, de lucro. Assim como os europeus fizeram durante a colonização da América e da África. Assim como os estadunidenses fizeram ao financiar a guerra e depois a reconstrução dos países devastados na Europa após a Segunda Guerra Mundial.

O mundo eurocêntrico, que cedeu espaço à extravagância consumista e predatória dos Estados Unidos no pós-guerra, acabará ficando em segundo plano com a ascensão dos asiáticos nessa brincadeira.

E volto a frisar: enquanto as empresas estadunidenses visam entregar aquilo que dá mais lucro e vantagem política para elas, as empresas asiáticas estão mais interessadas em entregar aquilo aquilo que sabem que fará você ficar mais tempo na plataforma. Ah, mas você tem que dar os dados para eles, blá-blá-blá… Opa, não se esqueça do escândalo de dados do Facebook–Cambridge Analytica! Pegar seus dados todas vão, mas você vai preferir favorecer quem te entrega o que elas querem ou quem te entrega o que você quer? Boa parte dos jovens, não só os estadunidenses, já percebeu que isso está intrínseco nessas redes. E você, já parou para pensar nisso?

domingo, 15 de dezembro de 2024

A polêmica imaginária do GOTY 2024

Quero falar dar a minha opinião sobre a eleição do melhor jogo do ano de 2024, tentando desenvolver um pensamento para que fique mais fácil das outras pessoas entenderem. É interessante pensar que a eleição é realizada pela votação de diversos veículos de imprensa, no Brasil temos oito canais de imprensa que participam dessa eleição, e cada um deles precisa repassar a ordem dos games finalistas para a organização do TGA, e é apenas “uma lista” por veículo de imprensa. Sim, falei especificamente dessa premiação porque existem várias premiações de melhor jogo do ano, o qual a do TGA, The Game Awards, é a mais conhecida.

Assim sendo, entendo que existam reuniões para votação interna dos sites/portais, e eles definem assim sua ordem de games para repassar à premiação. E por assim já sabemos que não é para eleger um game como o melhor do ano, e sim decidir a ordem dos melhores dentre os finalistas. Logo, todos os games finalistas vão somando pontos conforme a ordem que eles são colocados: o primeiro ganha x pontos, o segundo game ganha y, o terceiro game da lista ganha z pontos, e assim por diante.


Ao final da apuração dos votos, o vencedor é conhecido. O que pode ter acontecido nessa votação é que o game mais constante venceu, Astro pode não ser o game GOTY da maioria dos veículos de imprensa, mas possivelmente esteve bem constante entre o segundo, e terceiro, enquanto Wukong, ReFAntazio e Rebirth devem ter alternado muito mais entre as posições, por exemplo: Rebirth pode ter ficado 30 vezes em primeiro em 30 respostas, mas em outras 30 ele ficou em quinto na lista, por exemplo. Astro pode ter ganhado não sendo o mais votado como o melhor, mas por estar mais ao topo dentre todos os veículos de imprensa que participaram da eleição. Aliás, quem viu minimamente algo sobre o AstroBot sabe que este game respira videogame, e esse comentário não é uma alusão sobre a campanha em que nós encontramos partes de videogames das gerações antigas de Playstation.


Dito isso, e adicionando uma informação sobre a tão “polêmica” premiação de 2018, não é segredo algum que nestas reuniões dentro das redações para decidir os votos dos veículos de imprensa o Red Dead 2 foi tremendamente desfavorecido. A votação aparentemente acontece em novembro, e vamos lembrar que o God of War foi lançado em abril de 2018, e o Red Dead Redemption 2 no final de outubro, pouquíssimo tempo antes da votação.


Já ouvi de jornalistas que nestas reuniões de 15, 20 jornalistas para decidir os votos do veículo de imprensa, apenas um, ou dois jornalistas já tinham conseguido jogar Red Dead Redemption 2 (pois a redação inteira não vai parar pra todo mundo jogar a mesma coisa) e aí seria sei lá, dois votos do RDR2 contra 7 ou 8 votos dentro daquela redação de pessoas que já tinham jogado o GOW, dentre os outros votos pra AC Odyssey, Spider Man, Celeste...


Dito isso, afirmar que 2018 foi injustiça ou até pensar em “revanchismo” pela premiação de 2010 é deixar o lado fanboy de faroeste disparar, é assumir que não quer nenhuma lógica que mostre que sua birra não tem nenhum sentido, assim como dizer que o Wukong merecia muito mais que os outros, pois dentre os games indicados, era o game com menor média de notas do Metacritic, que abrange muitas notas dos mesmos portais que participam da eleição da premiação em questão. Ah... mas tem que colocar mais importância no voto popular... então, no Metacritic o Astrobot é o game melhor avaliado do ano. Ainda no TGA, a votação popular teve o Wukong junto à DLC do Elder Ring e outros três jogos chineses: Genshin Impact, Wuthering Waves e Zenless Zone Zero. Sim, uma DLC, para o público, foi melhor JOGO do que Rebirth, ReFantazio e cia. Por fim, quero lembrar vocês que existe outra premiação que leva mais em conta o voto popular: Golden Joystick Awards.


Enfim, sabemos que tem muita gente que fica xingando a premiação sem ter jogado os outros games que competiram. Um grupo fechado e barulhento decidem por si mesmo quem é o GOTY e ficam disparando sobre quaisquer outro resultado que não seja o que eles querem. O próprio 2018 teve muitos jogos bons que poderiam ter ganho, Spider Man foi sensacional, muita gente acha o AC Odyssey o melhor dos AC RPGs, Celeste é incrível principalmente ao abordar temas de saúde mental (e tem arte BR).
E pra mim, a comparação de AstroBot ser GOTY e RDR2 não ser não é muito inteligente, eles não competiram contra os mesmos adversários e nem entre si. E nem possuem versões para as mesmas plataformas.



quarta-feira, 1 de maio de 2024

01/05 - uma data que entrou para a eternidade (escrito em 2014)

Este é um texto que escrevi originalmente em 2014, e estou repostando ele aqui porque creio que ele mereça estar num lugar onde exponho muitas das minhas ideias. E com o tempo, as imagens no meio do texto acabaram tendo seus links expirados, porém vou mantê-las no meio do texto embora não seja possível visualizar, afim de manter a fidelidade do texto original. Vamos lá?

Uma manhã de domingo normal pra época, a TV ligada na Globo para acompanhar o Grande Prêmio, algo que era habitual até que num determinado momento, minha mãe que provavelmente estava comigo no colo apenas 4 dias antes fazer meu primeiro aniversário grita para o meu pai: “Ele Bateu!! O Ayrton bateu!!” Meu pai conta toda vez que fala no assunto que estava no quintal, veio correndo pra ver o que estava acontecendo. Galvão Bueno, talvez mais que amigo de Senna narrava: “É a parte de maior velocidade, eles vão atingir os 330KM/H. SENNA BATEU FORTE!! SENNA ESCAPOU E BATEU MUITO FORTE!!!! Ele vinha em primeiro, escapou e bateu forte!!” Talvez pelo nível de amizade com o piloto algumas frases depois ele afirma: “DEMORA PRA CHEGAR O SOCORRO, UMA DEMORA ABSURDA PRA CHEGAR”, os fiscais de pista que logo viram que nada podiam fazer frente a situação, gesticulavam as bandeiras de forma desesperada para os outros pilotos reduzirem a velocidade. Senna TamburelloAs câmeras tentavam buscar imagens e quando um helicóptero gravou a cabeça do Ayrton se mexendo, todos imaginaram que estava tudo bem quando na verdade o movimento fora causado por um profundo dano cerebral. Quando os médicos chegaram removeram ele do carro e fizeram os primeiros socorros ali mesmo, ao lado da destruída Williams, alguns minutos e ele estavam indo de helicóptero para um hospital em Bolonha onde poucas horas depois fora anunciada a sua morte. No carro foi encontrada uma bandeira da Áustria, Senna homenagearia a Roland Ratzenberger em caso de vitória, Ratzenberger que havia morrido no sábado anterior justamente uma curva após a dita Tamburello. Foi um GP trágico, teve, além disso, um acidente onde voou um pneu e acertou alguns na arquibancada, outro em que também um pneu se soltou no pit lane e acertou alguns mecânicos. O trágico GP ainda contou com os sistemas de comunicação entrando em colapso fazendo com que um piloto voltasse a pista mesmo com a corrida interrompida e se não fosse pelos fiscais abanando veementemente as bandeiras amarelas era fácil de prever um choque desse carro com o helicóptero de resgate que estava na pista aguardando Senna. Então eu pergunto: Quem é que acredita que Ayrton entrou naquele helicóptero ainda com vida?? Williams Senna
A imagem de Senna aflito olhando para o nada, como se estivesse perdido ficaria marcada para sempre na memória de seus fãs. Horas depois no famigerado Plantão Globo Roberto Cabrini noticiou: "Morreu Ayrton Senna da Silva... Uma notícia que a gente nunca gostaria de dar." Seu velório em São Paulo foi acompanhado por milhares de fãs e personalidades da Fórmula 1. Entre os pilotos escoltando seu caixão estava Alain Prost, seu maior rival nas pistas. Também presente estava Sir Frank Williams, seu último chefe de equipe, que declarou: “Ayrton não era uma pessoa comum. Ele foi na verdade um homem mais grandioso fora do carro do que dentro dele.”Ayrton Senna
Mas quem era Ayrton Senna da Silva??
Filho de um empresário, com poucos anos de idade já demonstrava interesse por competições, com 4 anos ganhou um kart do seu pai que ele mesmo tinha construído com um motor de uma máquina de cortar grama. Demonstrando grande interesse e habilidade, aos oito anos já se aventurava em alguns jipes dentro da fazenda de seus pais. Aos 13 já competia no sul-americano de kart que acabou ganhando três vezes até 1980. Ganhou o campeonato brasileiro também em três oportunidades e o que lhe faltou foi o campeonato paulista e o Mundial de Kart, que competiu quatro vezes e foi vice duas vezes. Ayrton Kart
Em 1981 decidiu ir pra Europa, tentar algo diferente, estreou na Fórmula Ford Inglesa e a ganhou, no ano seguinte foi campeão europeu e também britânico da mesma Fórmula Ford, só que com motores um pouco mais potentes. Em 83 decidiu por usar o nome de solteiro da mãe, pois Silva era muito popular no seu país, também acabou ganhando o campeonato da Formula 3 que disputou e um novo rival, foram duras as batalhas contra Martin Brundle. Ganhando várias corridas no lendário circuito de Silverstone, tal circuito acabou ganhando o apelido de Silvastone por parte da imprensa inglesa.
Senna chamava tanta atenção que despertou o interesse de algumas equipes da Formula 1. Foram a Williams, a McLaren, a Brabham e a Toleman as interessadas. Em 84 a Brabham já tinha um brasileiro e seu patrocinador preferia um nome italiano. Testou na Williams, mas foi na modesta Toleman que ele conseguiu uma vaga. Logo na segunda corrida da temporada marcou seus primeiros pontos, resultado que se repetiu na terceira e na quarta corrida não conseguiu tempo para disputar, a única vez que isso aconteceu. Mas foi nas ruas do principado de Mônaco que ele mostrou ao mundo do que era capaz, com seu limitado Toleman que tinha um problemático motor turbo, acabou largando em 13º. Numa corrida com forte chuva fez um rápido progresso e na volta 19 acaba conquistando a segunda posição após ultrapassar o então tricampeão Nikki Lauda como o Sebastian Vettel ultrapassa um retardatário hoje em dia. Mais algumas voltas e a chuva aumentava, o líder era Alain Prost e Senna vinha rápido, certamente conquistaria o primeiro posto quando na volta 31 ambos recebem a bandeira quadriculada. A corrida acabou antes numa decisão que até hoje é tido como política e que acabou tirando o título do francês no final do ano. Ainda naquele ano acabou tendo mais dois pódios e um contrato com a Lotus para o ano seguinte.Senna Mônaco 84 Toleman
A Lotus foi grande o suficiente para ele crescer como piloto e errar sem o medo de ser almejado pelos jornalistas. No primeiro ano conseguiu já sua primeira vitória em Estoril, GP de Portugal sob forte chuva. Na Bélgica também com forte chuva conseguiu a segunda. Graças ao bom motor Renault para a classificação, ficou conhecido com o “rei das poles”. Mas nas corridas o motor não tinha o mesmo rendimento e acabava deixando o carro na mão. Encerraria o ano com uma corrida marcante no GP da Austrália, quando repetiu um feito de seu ídolo Gilles Villeneuve e pilotou um bom tempo sem o bico do carro, saindo várias vezes da pista mas mantendo a segunda posição. Infelizmente não pode se manter devido um problema elétrico em seu carro.
Senna Lotus
Em 86 com um carro pouco mais confiável ele conseguia brigar por vitorias com a estratégia de trocar uma vez menos os pneus durante a corrida. Talvez o GP mais emblemático seja o da Espanha, em Jerez de la Frontera, no qual bateu a Williams de Nigel Mansell por 0,014s uma das menores diferenças de chegada da história da F1. Conseguiu a liderança do campeonato, mas não por muito tempo visto que as Williams e as McLarens eram muito superiores ao seu carro.
No ano seguinte em 87, A Lotus ganhou os mesmos motores Honda das Williams e também novas cores de um novo patrocinador, mas mesmo assim não foi capaz de ser tão forte quando os carros de Piquet e Mansell. Chegou a liderar o campeonato, mas não manteve o ritmo, neste ano conquistou duas vitórias, uma delas no principado de Mônaco, a primeira do recorde de seis triunfos. Criou boa relação com os japoneses da Honda e por isso acabou acertando com a McLaren para o ano seguinte, em 88 a McLaren teria os motores turbo V6 da Honda em seus carros.
1988 Formula One World Championship.<br />Ayrton Senna <br />Honda Marlboro McLaren MP4/4.
Com os números 11 de Prost e 12 de Senna, o MP4/4, carro da McLaren venceu 15 das 16 corridas do ano, fortes disputas entre os dois pilotos resultando até em alguns acidentes, mas no fim do ano Senna acumulava 8 vitórias e o primeiro título.
Em 89 a disputa entre os dois se tornou uma guerra psicológica. Foram seis vitórias brasileiras até o Japão, onde Prost acabou levando o título depois de um acidente na Chicane Casio entre ele e Senna, que foi ajudado pelos fiscais a voltar para pista, após o final da prova, Senna foi desclassificado por ter cortado a chicane, e suspenso temporariamente do campeonato.
Já em 90 Senna via seu rival na Ferrari e a disputa no mesmo circuito do Japão, o brasileiro arrancou a pole do francês e na largada, na primeira curva o brasileiro joga seu carro na traseira de Prost, os dois saem da pista a mais de 270KM/h. Com os dois abandonos, Senna ganhava a segunda taça.
Senna 27
Em 91 depois de um inicio avassalador de 4 vitorias seguidas, uma delas no Brasil, talvez a mais emblemática da sua carreira, onde liderava a prova quando acabou ficando apenas com a sexta marcha, o esforço era visível quando as câmeras mostravam sua dificuldade de dentro do cockpit, a torcida, toda vez que ele passava frente a ela cantava como as fanáticas torcidas dos times argentino, era um Ole, Ole, Ole, Ola Senna!!! Senna!!!

Ao fim da corrida começou uma garoa, mas nada que impedisse a tarde dele em Interlagos, as dificuldades foram tantas que após cruzar a linha de chegada ele começou a gritar como se uma bigorna fosse tirada de suas costas, foi de ponta a ponta, na reta oposta pegou a bandeira brasileira dos fiscais e desfilou com ela, mas acabou nem conseguindo voltar aos boxes, precisou de atendimento médico no carro devido as fortes emoções que sofreu durante o fim de semana, e a torcida, essa fez uma baita festa. AYRTON SENNA
Outra cena que ficará marcada é a dele com dificuldades em conseguir levantar o troféu no pódio. Após as quatro primeiras corridas houve uma queda de rendimento, mas mesmo assim conquistou mais 3 vitórias e o terceiro Campeonato Mundial. Senna 1
No ano seguinte a McLaren não conseguiu fazer um carro a altura das novidades tecnológicas da Williams, os motores V12 da Honda também não ajudavam mais tanto. Foram incríveis 9 vitórias de Nigel Mansell e um título muito antecipado, Senna mesmo com um carro nada competitivo conseguiu incríveis três vitórias, no final do ano a Honda resolveu sair da F1.
Para 93 Ron Dennis tentou os motores Renault V10, mas tudo o que conseguiu foi os motores Ford como um cliente comum ainda, recebendo versões antigas dos motores da Benetton. Senna estava sem contrato e decidiu aceitar o convite de Dennis para testar o carro na primeira corrida do ano. Senna achou que o carro era bem nascido, mas ainda incapaz de competir com a Williams, agora de Prost. Senna correu o ano inteiro assinando corrida por corrida, nesse ano teve sua segunda vitória em casa, Prost liderava quando começou a chover, ele acabou perdendo o controle do carro e batendo, Senna aproveitou para ganhar algumas posições e no final erguer mais uma vez o troféu. Na comemoração, os brasileiros invadiram a pista e pararam o carro dele, Senna fora carregado por alguns metros e no mesmo carro que o trouxe para o pódio na vitória de 91 ele vinha gesticulando para torcida, agradecendo pelo carinho e vibrando por mais uma vitória, ele ganhou também o GP da Europa em Donington Park na corrida lembrada como a da “volta perfeita”, onde da 4ª posição em que largou caiu para quinto, mas antes do final da primeira volta já liderava a prova.
Senna Donington Park
Senna havia tentado a Williams em 93, mas uma cláusula contratual de Prost impedia a entrada de Senna para a equipe, o mesmo não se repetiu para 94, quando mesmo com o contrato assinado o francês decidiu se aposentar do que dividir a equipe com Senna mais uma vez. O novo carro da Williams era rápido, mas ao mesmo tempo arisco, devido às proibições dos sistemas eletrônicos usados até então. Na primeira corrida, aqui no Brasil, Senna fez a pole, mas acabou perdendo a liderança da prova durante sua parada nos boxes, em busca de recuperar a liderança ele acaba exagerando e rodando na curva da Junção, seu carro apagou e foi fim de prova. Na segunda corrida, nova pole e na primeira curva Senna virou um grande alvo em que foi atingido por outros dois carros dando fim a sua corrida. Senna Williams
A terceira corrida a história já foi contada lá em cima.
Mas o que faz Senna ser tão idolatrado hoje, mesmo depois de 20 anos? Um espaço de tempo considerável, porém incapaz de apagar sua imagem de mito e ídolo em todo planeta, uma lenda eternizada para sempre na história do automobilismo mundial.
O que fez de Senna uma figura tão emblemática? Por que desperta diferentes emoções nas pessoas? Seu patriotismo? Os títulos e resultados? Suas ações sociais e obras de caridade? Seu arrojo e frieza? Sua capacidade de aniquilar psicologicamente seus adversários, em especial os companheiros de equipe? Ou simplesmente o fato de ter “morrido ao vivo”?
Senna era mais que um grande piloto, era religioso ao extremo além de numa época em que alguns tinham vergonha de ser brasileiro, ele chegava ao ponto alto do pódio levando a bandeira verde e amarela. Uma pessoa carismática, que chamava a atenção de todos quando falava e nestas oportunidades demonstrava aquilo que mais o caracterizava: sua determinação em conseguir aquilo que queria.
Isso ficou evidente em 2009, quando a BBC elegeu o brasileiro como o maior piloto de todos os tempos: "provavelmente nenhum piloto na história da Fórmula 1 dedicou-se mais ao esporte, deu mais de si mesmo em sua inflexível perseguição ao sucesso. Senna era uma força da natureza, uma poderosa combinação de espetacular talento cru e algumas vezes de uma determinação espantosa. Tinha a expressão de um herói romântico, um carisma que poderia acalmar qualquer sala, a eloquência de um poeta e a espiritualidade com a qual milhões sentiam que podiam se identificar. Tudo isso fez dele um semi Deus no Brasil e admirado por todo o mundo como poucos esportistas foram antes ou desde então".
Acho que me resta terminar com uma de suas inúmeras frases que circulam pela internet, mas a que de certa forma mais me chama a atenção:
“Tenho medo da morte e da dor, mas convivo bem com isso. O medo me fascina.”

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

A opressão nas eleições

Vamos ser bem honestos.

Tem muita gente sendo oprimida pela ideologia de algumas classes que neste atual governo se colocaram como dominantes, como os milicianos, uma galera de uma alta elite da igreja evangélica, empresários a beira da falência, ou uma galera louca para invadir mais e mais da Amazônia, ou de áreas de reserva. E Bolsonaro consegue ser a convergência de todos estes. É essa galera que é racista, homofóbica, machista, xenófoba, intolerante, é essa galera que não quer um país progressista, que se beneficiam do país vivendo em um grande atraso.

É este tipo de gente que resolve fazer campanha política com mentiras, com montagens, com todo tipo de jogo sujo que eles podem. Tudo para evitar que algo mudem e que eles tenham que responder criminalmente pelo que fazem. 

Acredite, eles conseguem atingir muita gente, desde as igrejas com inúmeras casas que ao invés de pregar sobre o seu deus resolvem falar de política, até os vários vídeos de "patrões" ameaçando seus funcionários em caso de voto contrário ao do Bolsonaro. Esse padrão pode nem ter muita coisa, mas conseguiu estar em um grupo que tem alguém mais relevante, que está no grupo de alguém mais relevante... e então ele acaba pensando que também pode fazer algo assim. 

Ah... na história isso era conhecido como o "Voto de Cabresto", algo que era uma forma de comprar votos e que acontecia no nosso país a um século atrás, lembra quando falam de coronelismo? E quem faz isso nem se importa se isso é ou não um crime, pra eles ser um criminoso perante a lei não vale de muita coisa porque eles não tem o mínimo de ética, o mínimo de moral para se importar com isso. Ou ainda, mesmo que ganhe uma multa ou alguma pena que eles podem simplesmente não cumprir, não pagar, ou se pagar é algo tão irrisório que nem pareceu uma punição por um crime.

São estes que conseguem influenciar uma parte do povo, fazer com que eles nem saibam direito o que criticam, não sabem o porque defendem Bolsonaro, não sabem o porque não votam no outro candidato. Os que são atingidos por uma onda de manipulação, com inúmeras fake news criando um mundo que não existe, e que  não medem esforços para tentar detonar todos aqueles que entram em desacordo com o estes manipuladores querem. 

Assim, muita gente acaba defendendo um governo que vai contra os seus próprios princípios, contra os seus próprios interesses. Tudo isso porque em algum momento um bando de iletrados, retrógrados, imorais e criminosos querem continuar sendo as atrocidades que são.



quinta-feira, 21 de julho de 2022

"Virar Venezuela"

É meio chato que alguns ainda acreditem nisso, mas como economista acho importante explicar o porque o Brasil não corre riscos de virar uma Venezuela. Vamos lá.

Primeiramente é importante entender como a crise da Venezuela aconteceu. Você sabe como?

A Venezuela é um dos maiores exportadores de petróleo, e toda a sua economia era baseada nisso. Não existia uma segunda coisa na economia deles para ajudar. Tudo no país dependia do dinheiro que eles faziam com o petróleo, e a elasticidade do preço ou da demanda deles iria impactar muito na aquisição dos bens de consumo, os bens que a população precisava para o dia a dia. E quando eu falo em bens eu estou falando desde a importação de alimentos até roupas, eletros, etc. Quando houve uma mudança repentina no preço e demanda do petróleo que eles produzem, isso ficou insustentável. Não havia dinheiro e não havia um plano B para a economia. E assim a crise que amedronta os desinformados aconteceu.



Vamos trazer este pensamento para o Brasil. Vamos tentar traçar um paralelo. O Brasil não é um país que depende unicamente de uma coisa na economia para estar economicamente bem. Na verdade nós temos grandes espaços vazios, espaços não ocupados da nossa economia, mas temos um setor terciário muito grande e que se ele estiver bem, a economia do país ficará bem.

E ao contrário do que muita gente pensa, nestes últimos anos de governo nós chegamos mais perto da Venezuela como nunca antes tínhamos chegado antes. Desde 2019 nós vimos grandes empresas saindo do país, vimos Ford, Mercedes, Sony, LG e até varejistas como o Wall Mart saindo daqui. Quantas vezes você não escutou lá em 2018 e 2019 o termo "fuga de investidores", quando o dólar começou a subir e o nível de confiabilidade do país a cair? Tanto que em determinado momento vimos a expressão de que o "agro é o que puxa a economia do nosso país". O uso desta frase claramente mostra que tem muita coisa errada na economia interna, pois o Agronegócio brasileiro é um setor que praticamente não depende da economia brasileira, ele depende do preço das commodities que vem lá da bolsa de Chicago, e assim da cotação do dólar. E se você olha as notícias mais atualizadas, vemos que o agro está um tanto sem expectativas de grande crescimento. Imaginem se a China diminui a compra de soja do Brasil, como isso afetaria o nosso agronegócio? 

Mas voltando um pouco, por declarações do ministro da fazenda vimos que falta incentivo a muita coisa que poderia ajudar a nossa economia, que poderia ser um plano B, um plano C, um plano D. Vimos um governo que passou três anos chamando os programas de distribuição de renda de "bolsa esmola", um governo que foi eleito com uma as promessas em acabar com estes auxílios. Programas de distribuição de renda são essenciais para movimentar a economia, principalmente em localidades mais distantes. Eles dão a oportunidade a alguém que não tinha dinheiro fazer compras, e assim dará a oportunidade de alguém vender, e o vendedor precisará comprar mais produtos para vender, a indústria vai precisar produzir mais, para produzir mais a indústria vai precisar contratar mais. É uma das várias formas de fazer a roda da economia girar. Um país com uma boa política de distribuição de renda se beneficia muito disso. 


Mas vimos um governo com números de  desempregos chegando a marcas históricas, vimos um governo que alterou a forma de contabilizar o nível de desempregos para esconder a realidade, colocando na conta também os trabalhadores informais (os bicos, os "freela"). E o que vocês acham que isso quer dizer? A economia está ruim? Quando se fala que o brasileiro perdeu seu poder de compra, não estamos falando apenas de inflação, estamos falando que muita gente perdeu a sua renda e não consegue mais comprar as coisas que precisam. Além do preço da carne de um dos países que mais exportam carne pro mundo ficar bem mais caro, muita gente perdeu a renda que tinha antes, perdeu seu emprego e isso torna mais difícil que ela consiga comprar a carne. 

Ao final das contas, um país que não quer ser uma Venezuela não se vangloria apenas por um setor da economia ir bem. Um país que não quer ser uma Venezuela tem um projeto econômico que não foca apenas em ser o "quintal" do mundo, é um país que vai muito além de agricultura, pecuária e extrativismo. 


Um país que não quer ser uma Venezuela tem investimentos em diversos âmbitos, seja na indústria automobilística, têxtil, alimentícia, de bebidas, indústria química e petroquímica, um país que pensa tanto na indústria de tecnologias e também incentiva a construção civil, um país que investe na saúde e na educação para ter uma população capacitada a trabalhar em todos estes âmbitos. 

Mas não apenas neles, precisamos falar do setor que abrange o destino final de tudo isso, que posso resumir em "varejo e serviços". Tudo o que é produzido precisa ser comercializado, deve estar a venda e numa economia de vento em poupa, o nível de desemprego não é alto e os trabalhadores tem dinheiro o suficiente para ir ao comércio, e também ao setor de serviços. O setor de serviços engloba muita coisa, muita mesmo. Vai desde serviços de transporte, frete, advogados, clínicas médicas, restaurantes, comerciantes, turismo, eletricistas e encanadores, serviços de entretenimento e cultura, finanças... Tudo isso também faz parte da economia e merece a atenção do governo para que exista uma estrutura para a economia ir bem. Tudo precisa da atenção para não corrermos os mesmos riscos de que nosso país vizinho esteve exposto. 


Apenas para finalizar, um governo que se diz fazer tudo por um único setor da economia e que como comentei, é um setor que não depende do governo para sobreviver. Este governo apenas estampa que pouco se importa com os vários outros setores da economia, e que está muito mais próximo de ser uma Venezuela do que ele alega não estar.

terça-feira, 14 de junho de 2022

A parábola do taxista - a dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa. 

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.


Texto do site da revista epoca escrito por ELIANE BRUM.
Post movido de um outro blog meu, postado originalmente em 15/11/20211.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

O PLANETA DAS BARATAS

Repost do blog do Flávio Gomes pela simples concordância.

     Sou um interessado observador de baratas. Elas são nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de adversários tão hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, só vão sobrar as baratas.
     Talvez seja melhor. Não há notícias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas não tenham nada na cabeça, não sei sequer se têm cabeça. Baratas não se matam. São uma espécie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocréias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.
     Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razoáveis. Ou para comer, ou para se defender. Eles não odeiam os outros animais. São indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. Têm seus instintos, suas próprias leis, e vão levando a vida através dos séculos.
     O homem, não. É um fracasso como espécie animal. É capaz das maiores façanhas tecnológicas, de ir à lua e clonar gente, mas incapaz de estabelecer regras de convivência que deveriam fazer parte de algum código genético interno, como o das baratas, das lacraias e das mocréias. O homem fabrica armas que têm como único objetivo matar outros homens. E transforma suas criações mais formidáveis, como aviões, em mísseis recheados de gente muito mais eficientes que ogivas nucleares.
     A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie, é pela estupidez que seremos lembrados pelas baratas daqui a alguns milhões de anos. E o 11 de setembro de 2001 será emblemático, o dia em que o homem a exerceu com esplendor.
     Eu e as baratas passamos o dia anteontem colados na TV, vendo nossa estupidez transformada em espetáculo de mídia. Nada mais formidável, cardápio para todos os gostos. Para aqueles que defendem o troco imediato, com a mesma violência e insanidade, e para os que acreditam que, finalmente, a arrogância do poder econômico e político recebeu sua lição, sentiu na pele o que é ter medo, o mesmo medo disseminado pela força ao longo dos anos.
     Aqueles que admiram a superioridade imposta por nossos vizinhos do norte ao resto da humanidade no último século, que se sentem incomodados pelas nações que não tiveram a competência de construir suas disneylândias e não jogam basquete direito, estão radiantes. É a hora de provar de uma vez por todas quem manda no galinheiro.
      Estes devem ter adorado a figura patética do presidente caubói garantindo a vingança com discurso hollywoodiano, “não se enganem, já vencemos outros inimigos antes, vamos vencer de novo”, um Forrest Gump mal-acabado defendendo ideais de liberdade, democracia e justiça nos quais só quem nunca esteve nos EUA pode acreditar.
(Basta meia hora em território americano para perceber a falácia dos tais ideais. Que liberdade existe num país vigiado por câmeras e satélites, onde jogar um chiclete na rua é motivo para ser detido pela SWAT? Que democracia é essa que referenda uma eleição fraudulenta e coloca na presidência um sujeito que teve menos votos que o derrotado? Que justiça é essa que faz com que esse país se ache no direito de interferir nos destinos de todos os outros exportando guerras e miséria?)
     Os EUA apanharam. Não sabem de quem, mas talvez saibam por quê. E, se não sabem, era hora de alguém se dirigir ao seu povo e admitir que se meia-dúzia de doidos foram capazes das atrocidades do 11 de setembro, é porque muito mal esse país andou fazendo a outros povos por aí para ser tão odiado. Infelizmente, o caubói não é esse alguém. Sob a sombra e o cheiro fétido de 20 mil cadáveres, o caubói estava mais preocupado, horas depois dos atentados, em garantir aos seus cidadãos que “a economia americana está aberta aos negócios como sempre”.
     Eu e as baratas nos espantamos com essa declaração. Aliás, nos espantamos também com palestinos festejando a morte de milhares de inocentes, em Beirute e Jerusalém. Ouvi alguém dizer que o que aconteceu ontem mostra que o mundo precisa de deus no coração. Discordamos, eu e as baratas. Foi o excesso de deus, assim mesmo, em minúscula, que levou as Cruzadas a dizimarem inimigos que acreditavam em outro tipo de deus, na Idade Média. Foi o excesso de deus no coração que conduziu os judeus na expulsão dos palestinos de seu território depois da Segunda Guerra. É o excesso de deus no coração que faz os árabes explodirem lanchonetes, shoppings, pizzarias, aviões e prédios pelo mundo afora.
     O que há, e nisso eu e as baratas concordamos, é um excesso de deuses nos corações dos homens. Um deles, citado pelo caubói, é o mercado, a economia, o papel verde que move as engrenagens do planeta, e que uma barata amiga confessou ter roído um dia, de um maço escondido sob o assoalho, sem saber do que se tratava — não apreciou o paladar. Em nome de deus, ou de Deus, ou das várias modalidades de deuses, matamos, explodimos, arrebentamos, crucificamos, bombardeamos, torturamos e acompanhamos tudo pela TV como se fosse um grande espetáculo, e nisso concordamos de novo, eu e as baratas, somos muito bons.
     Não há guerra boa ou paz ruim, escreveu Benjamin Franklin, curiosamente num 11 de setembro. As baratas discordam, a próxima guerra será muito boa porque sobreviveremos, me disse uma.

"As baratas são bem melhores do que nós."