terça-feira, 28 de janeiro de 2025

DeepSeek e a disrupção da recém nascida IA

Vamos lá! Vou tentar contar uma historinha de uma forma que fique fácil de entender.

Os Estados Unidos acreditam que ter um bom domínio sobre a Inteligência Artificial garantirá que eles estejam à frente na nova revolução industrial que está por vir — uma revolução digital. Por isso, investiram bilhões em tecnologias para que suas Big Techs, as grandes empresas de tecnologia, pudessem desenvolver inteligências artificiais generativas. Essas IAs têm o objetivo de auxiliar as empresas e transformar o mercado.

Eles sempre souberam que existe outro lugar no mundo com um poder tecnológico gigantesco. Lembra da crise de chips durante a pandemia? Conhece a TSMC? Ela é a maior fabricante de chips do mundo. Quando falo em chips, estou me referindo a processadores, placas de vídeo e outros componentes essenciais. Do outro lado do mundo, a Ásia domina a produção desses componentes com o melhor padrão de qualidade: memórias, SSDs, telas para celulares e muitos outros. No entanto, os EUA, especialmente o pessoal do Vale do Silício, nunca consideraram os asiáticos uma “ameaça” em termos de competitividade. Para eles, os asiáticos só faziam “peças”, e o desenvolvimento tecnológico oriental era visto como ultrapassado e pouco inovador.

Apesar disso, durante o primeiro governo de Trump, os EUA decidiram implementar algumas medidas para restringir parcialmente a influência chinesa. O caso mais notável foi o conflito com a Huawei, que começou com as antenas 5G e se estendeu à comercialização de seus aparelhos com Android. Claro, isso também afetou outras áreas, como a venda de chips da Nvidia, que se tornou uma das maiores empresas do mundo nos últimos anos, principalmente devido ao boom da Inteligência Artificial.

E os chineses seguiram suas vidas. Bem, então surgiu o famoso ChatGPT, um produto com investimentos gigantescos, inclusive da Microsoft, além de outras IAs de várias Big Techs estadunidenses, como o Gemini, o Copilot, a Meta IA e várias outras. Essas empresas conseguiram recursos praticamente infinitos para financiar a energia gasta e as inúmeras unidades de processamento necessárias para treinar e desenvolver essas inteligências artificiais.

Mas você se lembra do TikTok? Pois é, ele surgiu do outro lado do mundo, com uma interface que cativou o mundo todo. Certo? E eu diria que o aspecto mais disruptivo do TikTok não está na sua interface, mas na maneira como a plataforma entrega o conteúdo produzido. Enquanto Twitter, Instagram, Facebook e outras redes sociais estadunidenses geralmente entregam o que elas querem (já ouviu falar em interferência em eleições por meio dessas plataformas?), o TikTok é claro que está visando seu lucro, mas ele se esforça mais em entregar o que o usuário quer, o que ele procura. Já deve ter ouvido falar que o TikTok está “substituindo” o Google entre os mais jovens. Entendeu agora por que isso faz sentido? Percebe por que os estadunidenses estão tão preocupados e, recentemente, tentaram impedir o TikTok no país? Uma das condições para que a rede social continuasse acessível era que ela fosse vendida para algum grupo estadunidense.

Bem, continuemos. Antes mesmo do bloqueio do TikTok nos Estados Unidos, jovens e Tiktokers estadunidenses entraram em um acordo entre si para baixar outro aplicativo chinês: uma rede social usada por chineses para chineses, que funcionava basicamente como um “review” de lugares. Era um espaço para fazer check-in, avaliar estabelecimentos, postar fotos e compartilhar experiências. Nessa troca de informações culturais, os jovens estadunidenses perceberam que a China era um lugar completamente diferente do que imaginavam, com certas liberdades que existiam de um lado e não do outro, e vice-versa.

Dada toda essa contextualização, chegamos a alguns dias atrás, quando uma startup chinesa lançou um produto para competir com a Inteligência Artificial mais conhecida e utilizada no mundo. Esse novo produto chinês demonstrou características tão aprimoradas que rapidamente se tornou o aplicativo número 1 na Apple Store e também o mais bem avaliado por lá.

E, claro, isso chamou a atenção do mundo. Espantou todo o cenário das Big Techs estadunidenses, mostrando o tamanho da ineficiência delas.

Os chineses dessa startup trabalhavam com unidades de processamento limitadas e tecnologicamente defasadas em comparação com o que é utilizado pelas empresas estadunidenses, graças às medidas restritivas do primeiro governo Trump. Eles tiveram que trabalhar com o que tinham, aperfeiçoando os códigos de software para realizar todo o trabalho mesmo assim.

Com aproximadamente 6% do último investimento que foi captado pela Open IA, dona do ChatGPT, criaram o que já num primeiro momento é um produto muito equivalente aos usuários mais comuns e, em alguns aspectos, até melhor, conseguindo manter diálogos mais fluidos e contextualizados com uma linguagem mais cotidiana. Além disso, para provar sua eficiência abriram o código para que qualquer pessoa com conhecimento técnico suficiente pudesse utilizá-lo e adaptá-lo para suas necessidades. Algo como o Android, que pode ser usado em celulares, tablets, computadores, geladeiras, TVs e qualquer outro dispositivo, o DeepSeek também poderá ser “baixado” e adaptado.

O que acaba sendo curioso também é que, ultimamente, temos visto uma enxurrada de produtos lançados especificamente para trabalhar com Inteligência Artificial. Novos processadores com componentes dedicados à IA, notebooks de última geração e uma série de dispositivos que chegam ao mercado com a promessa de serem os únicos capazes de lidar com essa nova tecnologia. No entanto, com o código do DeepSeek aberto e pessoas testando-o em suas próprias máquinas, percebeu-se que não é necessária toda essa nova “safra” de produtos especializados em IA. O hardware antigo já é capaz de realizar as tarefas do modelo de IA pronto. Talvez não com a mesma eficiência, mas, de forma alguma, de maneira inviável ou por enquanto, ineficiente.

Apesar do marketing agressivo das big techs, a otimização do DeepSeek revela que para o usuário comum, a “era da IA” ainda não exige hardware novo, apenas que os softwares sejam mais eficientes. Claro que modelos futuros certamente deverão demandar chips mais avançados mas o marketing por upgrades imediatos ainda não parece justificável. Um exemplo claro são os celulares: a Samsung está anos à frente da Apple em IA, com a Galaxy AI chegando para as novas safras de celulares da marca, mas também integrada a aparelhos mais antigos por meio de atualizações de software.

Enquanto as empresas estadunidenses investem pesado em novas tecnologias de hardware, os chineses, com o DeepSeek, mostraram que, com software bem otimizado, é possível alcançar resultados impressionantes mesmo com equipamentos mais antigos. Essa descoberta não só desafia a narrativa das Big Techs, mas também coloca em xeque a necessidade de data centers cada vez maiores, assim como as atualizações constantes de hardware para que o usuário comum acompanhe as inovações em IA.

Aqui cabe uma distinção entre o usuário comum, que se vê incentivado a comprar um novo hardware que apenas ele seria capaz de utilizar a “inteligência artificial”, da necessidade das big techs desenvolvedoras de modelos de inteligência artificial generativa em ter acesso a grandes data centers capazes de cumprir tarefas pesadas como simulações científicas ou treinamento multimodal.

E então veio o crash: a falta de confiança dos investidores nos resultados que as empresas estadunidenses estão apresentando, em comparação com o investimento e o produto que a startup chinesa lançou.

Não importa o quanto os Estados Unidos tentem reprimir o que acontece do outro lado do mundo, estamos chegando a um momento em que eles terão grandes desafios para continuar liderando o mercado de tecnologia. A China tem se tornado um grande polo tecnológico, e isso inclui a inovação em IA, e podemos deduzir que continuará assim ao observarmos que os EUA tem cortado investimentos em universidades e pesquisas enquanto a China aumenta estes mesmos “gastos”.

Apesar disso, vale lembrar: a indústria chinesa de IA AINDA depende dos semicondutores ocidentais para treinar seus modelos mais complexos, uma vulnerabilidade que os EUA exploram com restrições à exportação de chips mas que aparentemente não é capaz de frear o processo. A China já possui investimentos gigantes para fábricas de chips para reduzir este gargalo, mostrando que a disputa pela eficiencia em IA está apenas começando.

Já sabemos o espetáculo que são as tecnologias japonesas e coreanas, embora em menor escala de investimento. E logo teremos mais um participante nessa brincadeira: a Índia já está chegando. Os Estados Unidos podem até considerá-los um grande rival e tentar impor uma “bipolaridade” ao mundo, mas os chineses não estão nem aí. Eles estão atrás de dinheiro, de lucro. Assim como os europeus fizeram durante a colonização da América e da África. Assim como os estadunidenses fizeram ao financiar a guerra e depois a reconstrução dos países devastados na Europa após a Segunda Guerra Mundial.

O mundo eurocêntrico, que cedeu espaço à extravagância consumista e predatória dos Estados Unidos no pós-guerra, acabará ficando em segundo plano com a ascensão dos asiáticos nessa brincadeira.

E volto a frisar: enquanto as empresas estadunidenses visam entregar aquilo que dá mais lucro e vantagem política para elas, as empresas asiáticas estão mais interessadas em entregar aquilo aquilo que sabem que fará você ficar mais tempo na plataforma. Ah, mas você tem que dar os dados para eles, blá-blá-blá… Opa, não se esqueça do escândalo de dados do Facebook–Cambridge Analytica! Pegar seus dados todas vão, mas você vai preferir favorecer quem te entrega o que elas querem ou quem te entrega o que você quer? Boa parte dos jovens, não só os estadunidenses, já percebeu que isso está intrínseco nessas redes. E você, já parou para pensar nisso?

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